terça-feira, 20 de setembro de 2016

Quais números têm formado as nossas famílias?

Essa é uma pergunta engraçada, prontamente você poderia me responder: Eu, meu cônjuge e meus filhos. Mas não é propriamente desses números que falo, mas de uns números que sorrateiramente andam nos assustando e direcionando o tamanho de nossas famílias.
Em revistas de maternidade esse é um tema bem frequente: “Quando devo ter o segundo filho”? Essa é uma preocupação das famílias, os pais preocupam-se com o filho mais velho, preocupam-se com a carreira, com o tamanho da casa e até com o tamanho do carro. E há um item que muito tem pesado nessa conta: os gastos. Ultimamente, os gastos com a criação têm determinado quantos filhos desejamos ter. Não são raras as famílias que são formadas por filhos únicos e não as critico, essa escolha é pessoal.
Mas uma coisa me incomoda nessa história toda, é a famosa frase: “dar do bom e do melhor”, ou, ainda, “dar tudo o que eu não tive”. Pagar a melhor escola, o melhor curso de inglês, a melhor festa de aniversário, as melhores férias de verão, os brinquedos da moda, etc. Recentemente descobri que estou grávida do segundo filho, extremamente desejado e planejado, com a graça de Deus teremos a sonhada família, dois filhos, no mínimo (risos).  Fomos muito parabenizados, muitas pessoas comemoraram conosco, justamente por saberem o quanto desejávamos isso. Mas, por incrível que pareça, ouvimos também: “Nossa, que coragem, e os gastos?”, “como você terá tempo para duas crianças?”, “Era melhor ter um único filho, para poder criá-lo bem”.
Essa experiência me deixou muito pensativa, uma vez que sempre que desejamos ter filhos (no plural), sempre pensamos em criá-los da melhor forma, dentro das nossas possibilidades, claro. Acredito que devamos ser responsáveis em nossas escolhas, afinal trata-se de um ser humano com necessidades e totalmente dependente dos pais.  O que me deixou espantada foi o ideal do “bom e do melhor”, como se fosse uma obrigação ter uma casa que tenha um quarto para cada filho, uma viagem anual e muitos passeios.
Vivemos numa era na qual os eletronic devices são mais do que acessórios, estes aparelhos têm pautado o nosso comportamento em sociedade. Eles duram pouco, são caros e têm uma série de funções - que nem sempre são necessárias. E, infelizmente, percebo, na minha rotina de quem trabalha na área da educação, que esses valores têm pautado as relações sociais. Afinal, necessitamos do bom e do melhor sempre, não? E nos relacionamentos nem sempre ficamos com a melhor parte, às vezes faz-se necessária a resignação e a abdicação de nossas vontades.
Como temos ensinado isso aos nossos filhos se repetimos como um mantra: “Darei para ele do bom e do melhor”, “Darei para ele tudo o que não tive”. Devemos ensinar aos nossos filhos, também, que às vezes ter um brinquedo um pouco inferior não é tão ruim, quando se tem uma boa companhia para brincar. Que viajar para uma cidade vizinha pode ser tão excitante e divertido quanto conhecer à Europa.  Que ter irmãos não é ter um pouco menos, pois existem mais gastos e menos conforto, mas é ter mais companheirismo, amor e amizade.
Esse medo de não ter como criar os filhos, ainda mais em época de crise econômica, afeta os novos casais, afeta os pais de um único filho e afeta aos jovens, também. Pois o medo de não dar conta financeiramente supera, e muito, o medo de não saber criá-los enquanto pessoas e seres humanos amáveis e tementes a Deus. Faça uma experiência, pergunte para um jovem casal do que eles têm medo na criação de um filho, a grande maioria tem respondido: “É muito caro ter um filho”. Será que a lógica de ter o melhor smartphone, tem afetado o desejo de formamos famílias? Devemos pensar sobre isso.
Acreditamos, Rodrigo e eu, na importância do amor de irmãos, da divisão e da soma causada pela relação fraternal. Evidentemente, quando escolhemos ter um segundo filho, devemos estar cientes de que haverá cortes de alguns “luxos”, viagens mais curtas e mais baratas, troca das marcas preferidas, lazer mais barato e alternativo, roupas de promoção, etc. A grande questão é: do que temos medo? De não conseguir sustentar nossos filhos ou de não garantir a eles uma infância mais abastada do que a que tivemos?
Não, essa não é uma obrigação, não se sinta obrigado a criar seu filho com mais mordomia ou conforto do que você teve em sua vida. Esse é um peso que não devemos carregar. Devemos criar nossos filhos para serem excelentes cristãos, servindo a Deus e ao próximo. Pense bem, pagar aquela escola bilíngue para o seu filho quando ele tem 3 anos de idade é tão importante assim?
Essa ansiedade que o mundo capitalista gera em nós, tem nos roubado saúde, oportunidades de viver e de sermos mais felizes. Infelizmente. Essa ânsia pelo melhor, sempre, não é tão saudável quando começa afetar decisões que nem sempre tem relação com a nossa capacidade de nos manter no centro do mercado de consumo. Para mim, o medo atual é: “como me manterei com o meu padrão de consumo se resolver ter tantos filhos?” Deixo para o fim dessa reflexão um texto muito necessário nos dias de hoje: Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós (1Pe 5:7). Deus nos abençoe!


 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Representatividade na Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Essa semana houve a 14ª Reunião Extraordinária da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, trata-se da instância maior de decisão de nossa igreja - que é composta de forma democrática, pois cada Presbitério envia os seus representantes para a reunião da assembleia. Dessa forma, a representatividade das diversas regiões brasileiras é garantida. Nessa reunião, houve a presença de 205 delegados, que votam e discutem os rumos de nossa amada igreja.




Temos que considerar que a IPIB tem uma trajetória corajosa e inclusiva no que tange ao ministério feminino, ordenamos presbíteras e pastoras, garantindo que as mulheres estejam nas esferas administrativas e, também, na liderança espiritual da nossa igreja. Não há o que discutir, a mão de obra das mulheres é essencial para o funcionamento de nossa igreja.
As mulheres, hoje (e desde sempre), levam a maioria dos trabalhos da base social da igreja, quais sejam: as ações sociais e diaconais; as lideranças das reuniões e ministérios de oração; dos departamentos infantis; do cuidado dos templos; dentre outros. Sim, as mulheres estão presentes de maneira maciça e fundamental no dia a dia da atividade evangelística e confessional das nossas congregações.
Agradeço a Deus pela oportunidade que nós, mulheres, temos em contribuir com o direcionamento administrativo e espiritual de nossa Igreja. Contudo, gostaria de chamar as amadas irmãs e os amados irmãos à reflexão: dos 205 delegados dessa Reunião da Assembleia, apenas 9 são mulheres (duas pastoras e sete presbíteras). Pensemos, essa representatividade na instância maior de decisão da nossa igreja reflete a realidade de nossas comunidades? Porque será que os presbitérios, em sua grande maioria, enviam apenas homens para essas reuniões? Será que nossas mulheres não têm com o que contribuir para a discussão e para as decisões da Assembleia Geral? Será que não falta a presença das mulheres, e das questões que elas enfrentam no dia a dia em suas funções eclesiais, nos debates e pautas dessas reuniões?
Temos que pensar o quanto a Assembleia Geral tem realmente representado a realidade das nossas igrejas, as decisões não devem estar descoladas das realidades locais, pelo contrário, para mim, a representação feminina é fundamental para entendermos os desafios das igrejas locais.
Na paz de Cristo! 
Simony dos Anjos 
Membro da IPIB


Histórico das mais importantes decisões referentes ao ministério feminino na IPIB
1934: Ordenação da primeira diaconisa Albina Pires de Campos
1972: Confederação Nacional de Senhoras pede ao Supremo Concílio a ordenação de mulheres ao presbiterato.
1984:Mulheres da IPI, através da "Carta Aberta", pedem o reconhecimento oficial do ministério feminino
1987: A Reverendada Sherron Kay George, missionária da Igreja Presbiteriana (USA), é a primeira pastora a trabalhar oficialmente com a IPI.
1991: Criação do Grupo de Reflexão sobre o ministério feminino
1999: Mudança no artigo 33 da constituição da IPIB, incluindo as mulheres no exercício do ministério ordenado do presbiterato e pastorado.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Mulheres, uni-vos!

Ontem foi dia do Amigo e pensei muito sobre o que ter um amigo significa. Nós mulheres, sempre tivemos alguns problemas com amizade: mulheres não são amigas e não há amizade entre homens e mulheres (sempre haverá interesses sexuais). Há uma construção sociocultural (e muito maligna) de que mulheres competem o tempo todo, que elas não conseguem ser amigas e que um amigo vale mais que uma amiga.
Por outro lado, se temos amigos, somos mal vistas e tratadas como oferecidas, haja vista toda extensão da maldade humana no que se refere à vida sexual do próximo. Nessa sinuca de bico, nós mulheres somos ensinadas desde pequeninas a não termos amigos, o que gera um isolamento feminino no espaço privado e o controle total das mulheres, em relação à organização e problematização de suas realidades. Você pode pensar que eu estou exagerando, mas não estou.
Para essa reflexão do dia do amigo, gostaria de trazer uma passagem bíblica sobre amizade entre mulheres e uma passagem bíblica que teimamos em achar que se trata de uma briga e disputa entre duas mulheres, mas, para mim, se trata de um grande ensinamento de Cristo.
A primeira passagem é o livro de Rute, uma história em que duas mulheres que são AMIGAS, conseguem vencer a viuvez e a falta de filhos unidas. Elas voltam para Israel, se unem para se sustentar, e proteger, e Deus as abençoa de uma maneira sobrenatural. SIM, Rute e Noemi eram amigas, uma nora e uma sogra AMIGAS. Mas o que a nossa cultura nos ensina? Que Sogras e Noras nunca podem se dar bem, por quê? Para não se unirem e fazerem valer a sua voz dentro de uma família? Para ficarem sempre buscando aprovação masculina e não apoiarem umas às outras em suas necessidades e  maus momentos? Não entendo o porquê de não falarmos da AMIZADE entre Rute e Noemi, falamos da fidelidade de Rute, como um dom divino e necessário, mas nunca pregamos a amizade que esse texto nos ensina.
A outra passagem que gostaria de refletir é a de Marta e Maria (Lucas 10,38-42), toda a minha a vida aprendi que Marta se preocupava com o supérfluo e Maria com o que era espiritual e bom, colocando Marta contra Maria - sim, colocando duas irmãs em pé de guerra. Qual é a situação: Marta pede a Maria que a ajude com a Diaconia da casa e Maria está aos pés de Jesus sendo discipulada. Por causa do pedido de Marta, Jesus diz: “Marta, Marta (chamado duplo -  isso te diz algo?) você está preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária. Maria escolheu a melhor a que não lhe será tirada.” E pá, o que interpretamos? Marta supérflua e Maria a sábia.
Porque não podemos ver esse texto como chamados diferentes, mas complementares? Que o chamado de cada um é a “parte que não nos será tirada”? Maria foi chamada para o discipulado e Marta para o diaconato. É nisso que acredito, a igreja e o cristianismo se faz de pregação da Palavra de Deus e serviço, ambos juntos e vinculados. Não devemos achar que Maria e Marta eram modelos opostos de cristãs, mas modelos complementares! Assim como TODAS nós!
Podemos ser amigas, podemos nos unir para fazer avançar o Reino de Deus e implementar a sua justiça na Terra. Por justiça social, por serviço ao próximo e por apregoar  a palavra de Deus, JUNTAS:


Mulheres, uni-vos!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Medo do inferno?

O Inferno em chamas, 1993
Quando eu tinha uns nove anos, teve uma exibição de filme com pipoca na igreja - o que era uma super programação, em 1995. Deveria ser um programa legal, deveria me sentir feliz e depois querer contar a história do filme para todo mundo, mas não foi bem isso que aconteceu. O filme era o fatídico “O Inferno em Chamas”, fiquei com medo do inferno, sonhei por meses (e anos), com isso.

Sim, fiz parte de uma geração que aprendeu a ter medo do inferno. Deveríamos ser bons cristãos, deveríamos seguir os dogmas da igreja e tudo o mais que aprendemos nas aulas do catecismo e com a Confissão de Fé de Westminster, senão iríamos para o Inferno. Não aprendemos a seguir esses ensinamentos pelo amor, mas sim pelo medo. Infelizmente.
Tenho pensado muito sobre a intolerância dos cristãos, sabemos que existem diferenças entre pessoas e isso diz respeito a religião, inclusive. Quando nós aprendemos a infernizar a vida dos que são diferentes de nós? Pensei, pensei, pensei… Comecei a reviver a minha infância, como eu tinha aprendido sobre salvação e sobre perdição. Comecei a lembrar do terror de ir pro inferno, de não chegar perto de um pecador, pois o pecado seria como uma doença que pegaria em mim e me levaria para o inferno.
Pareço estar relacionando coisas não relacionáveis? Talvez. Mas pense comigo: quem que é atacado por nós cristãos, senão aqueles que vão para o inferno? Nós fazemos com os outros o mesmo terror interno que sofremos por conta de uma pequena inversão na nossa maneira de ver a salvação. Não somos cristãos porque temos medo do inferno, somos cristãos por causa do amor a Cristo, por causa do sacrifício que nos atraiu. Imagino que isso faça uma extrema diferença na maneira de enxergar a vida.
Se começarmos a enxergar em cada ser humano a Imago Dei (Imagem de Deus) e que Jesus se sacrificou por amor, e por amor a todas as pessoas, será muito mais fácil olhar para o outro com respeito e tolerância. Sim, gays, pessoas de outras religiões, ateus, agnósticos, feministas, esquerdistas, e o que mais quisermos colocar nesse balaio,  são imagem de Deus (na visão cristã). Uia! Se quando olharmos para o próximo lembrarmos que escolhemos a Cristo por causa do amor e não por medo do inferno, nossa vida será mais leve, mais feliz e mais tolerante!
Eu, hoje, não tenho mais medo do inferno, pois escolhi a Cristo por causa do amor d’Ele na cruz, ir para o céu é uma consequência dessa escolha. Anseio vê-lo, tocá-lo e passar a eternidade iluminada pela fonte de luz eterna que é o nosso Deus! Não quero, mais, levar àquela vida mesquinha que outrora eu vivia, uma vida em que eu me preocupava em não ir para o inferno, apenas. Quero, e tento, levar uma vida cujo sentido é viver o amor d’Aquele que pela cruz me atraiu.


Fomos chamados pelo amor e para o amor! E a consequência do chamado do amor é ser chamado para servir. Sim, servir a todos sem distinção, falando das verdades de vida e de perdão única e exclusivamente pelo amor! Ensinemos às pessoas a virem a Cristo pelo amor, não pelo medo do inferno! Façamos do evangelho fonte de vida e boas novas, que tal? Hoje, eu quero ser uma pessoa melhor porque amo a Cristo e porque ele me amou. Se sou boa com o próximo, se sou honesta, boa cidadã, boa profissional e tudo mais, o sou porque Ele me amou primeiro. Somente n’Ele tenho salvação! Que o amor de Cristo conduza as nossas vidas!

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.João 3:16

sábado, 28 de maio de 2016

Por que os homens estupram?

Passei cinco os da minha vida estudando Ciências Sociais para entender que a sociedade é muito complexa e que, infelizmente, não existe receita para resolver nossos problemas. Identificamos os problemas e criamos possibilidades de solucioná-los, mas nem sempre isso é possível, somos cientistas, mas nem sempre resolvedores de problemas. Sim, somos cientistas.
Nessa última semana, vimos uma barbárie com uma garota de 17 anos e muitos especialistas de redes sociais analisando o caso. De todas as explicações, relaciono algumas:

1. A vítima era drogada, teve filho com 13 anos e estava sozinha de madrugada - por isso foi estuprada;

2. Os garotos são vítima da sociedade e, por isso, agem dessa forma;

3. Temos um cultura de desvalorização da mulher e de desrespeito ao seu corpo e direitos, por isso esses casos de estupros acontecem.

Provavelmente, existem outras, mas me aterei a essas três. Das três explicações, uma é descartável e entre as outras duas, uma deve ser manejada com cuidado. A primeira descarto logo de cara, uma vez que NUNCA a vítima é culpada, vi uma explicação no FB bem legal: culpar a vítima pelo estupro é como culpar os dinossauros pelo asteroide que os matou
A terceira é a que eu acredito, vivemos numa sociedade em que mulheres são estupradas e desrespeitadas em qualquer classe social, ambiente ou situação. Mulheres ricas, pobres, brancas ou negras, são desrespeitadas e violentadas (física, verbal, sexual ou psicologicamente); algumas dessas mulheres são mais vulneráveis à violência por serem mais pobres e vítimas de outros sistemas de exclusão - além do fato de serem mulheres - como as negras, por exemplo. Quanto mais dependente e sem capacidade de se manter sozinha, mais violentada essa mulher tende a ser. Por isso Cultura do Estupro, pois antes de um estupro acontecer, existe um comportamento social de desrespeito ao corpo da mulher que engendra nas relações sociais a violência (manja aquele grupo de wpp dos seus amigos do trabalho, no qual vocês comentam a bunda da colega ou que falam que a chefe dormiu com o dono da empresa? Duvidar da capacidade de uma mulher e vê-la apenas como objeto sexual faz parte da cultura do estupro).
A segunda temos que manejar com cuidado, como cientista social corroboro com a tese de que a falta de oportunidades para as classes pobres gera violência, aumenta o ciclo da pobreza e alimenta uma sociedade com desigualdades e ódio entre os que são diferentes. Mas nesse caso, meus caros, não se trata de oportunidade, ou não. Para mim, trata-se de uma cultura que está impregnada em todas as classes. As mulheres estão sempre um passo atrás, em qualquer classe social. A diferença é que você nunca vai ouvir que um Prof. Dr. da USP estuprou, ou tentou estuprar, uma aluna, mas fiquem sabendo que isso acontece - e eu conheço casos.

Por isso o cuidado! Não acreditem que esse é um problema dos pobres, é um problema da sociedade. É um problema seu! Esse segundo argumento tem sido usado com má fé por pessoas que querem livrar as suas próprias caras de uma violência que é endêmica na nossa sociedade.

Triste!


sábado, 16 de abril de 2016

Sobre cigarras e formigas...

Sugiro que ouçam essa música:




Trabalho em um campus universitário bastante arborizado e com um pequeno bosque. Há uns seis meses, mais ou menos, houve reprodução das cigarras e, durante a reprodução, elas ficam cantando durante uma ou duas semanas. Depois, se libertam de suas cascas (exoesqueleto), se reproduzem e, logo depois, morrem. Quando vejo uma cigarra cantando sempre recordo da velha fábula da Cigarra e da Formiga, lembram-se? Enquanto a formiga trabalhava a cigarra só cantava… Depois, veio o inverno e a formiga ficou quentinha no seu abrigo, com muita comida, e a cigarra, desprovida e com frio, teve que pedir ajuda para a heroica formiguinha trabalhadeira…
Isso é um crivo de julgamento: cigarra folgada, porque canta; formiga trabalhadora porque faz uma reserva - essa é a moral da fábula. Há alguns anos, em uma aula de biologia do ensino médio, descobri que as cigarras vivem de 1 a 17 anos embaixo da terra e que elas passam todo esse período reciclando matéria orgânica, essa atividade aduba a terra e evita o acúmulo de matéria orgânica. A cigarra, também, ativa o processo bioquímico das plantas, pois acredita-se que ao sugar a seiva das plantas, ela faz com que as plantas entrem num estado de dormência, evitando a floração exagerada  -  o que  esgotaria seus recursos químicos, abreviando a vida da flor.
Não que a formiga não tenha seu valor e  seu trabalho não seja importante, elas também são parte do final da vida, da decomposição dos animais e plantas. Elas regeneram aquilo que era “perdido”, além de,  ao andarem para lá e para cá, dispersarem as sementes e servirem como agentes polinizadores. No final das contas, cigarras e formigas têm quase as mesmas funções no mundo, mas uma é vista e a outra não. Uma é conhecida e a outra não. Uma tem um padrão de trabalho conhecido e a outra não.
Ao vermos a cigarra a cantar, parece que ela está ali apenas se divertindo e fazendo barulho, mas, na verdade, ela está num rito de reprodução, de colocar os ovos e morrer. Sim, quando uma cigarra vem à tona é para morrer. Triste, não? Pensando nisso, percebo a injustiça que cometemos com as cigarras por toda a vida. Separando-as dos demais decompositores, tratando-as como menos importantes no papel da "reciclagem" da vida.

A cigarra leva uma vida que ninguém vê, ninguém sabe e quando ela vem à tona ela é julgada. Pobre cigarra, não pode terminar a sua vida em paz, sem ser taxada de preguiçosa... Mas, isso é uma fábula, não tem qualquer relação com os que julgam aqueles que ficaram 17 anos embaixo da terra...

quinta-feira, 24 de março de 2016

A generalização do amor

Hoje é quinta-feira à noite, acabo de chegar do trabalho, estou cansada e faz um tempo que não escrevo, mas penso: “não posso deixar passar a Páscoa em branco, preciso escrever”. E cá estou eu, escrevendo sobre a data mais importante do calendário Cristão: Morte e Ressurreição de Cristo! O nascimento de Jesus e sua morte/ressurreição são as datas mais importantes do nosso calendário litúrgico, mas a Páscoa, para mim, é a mais profunda, é sobre a Graça, Perdão e Amor. Sobre imerecimento e a maior e mais legítima generalização dessa terra: a salvação é para todos!
Temos vivido momentos difíceis, de ódio, de intolerância, de impiedade. Podemos ser agredidos por usar uma cor; por preferência política; por opinião - independentemente de lado. Vivemos um grande “diálogo sem ouvintes”, fala-se muito e ouve-se pouco. Queremos ser ouvidos e entendidos, mas preferimos chamar de "retardados" aqueles que têm opiniões opostas. Optei por ter uma opinião à esquerda, que prefere se posicionar ao lado dos vulneráveis, que não quer julgar os "folgados”, mas que compreende que o nosso sistema econômico desfavorece a distribuição equânime de oportunidades, renda e conhecimento. Não acredito que as pessoas são folgadas ou pouco esforçadas, pois não há como ser dedicado com a barriga vazia; sem escolaridade; sem saneamento básico; sem boas escolas; boa saúde e sem opção de lazer nas periferias. Repare na periferia da sua cidade: quantos teatros? Centros esportivos? Áreas recreativas?

Pois bem, nessa Páscoa tenho aprendido a me recolher, embora ainda pense da mesma maneira. A graça e o amor imerecido são para todos, para os que pensam como eu e os que não pensam, também. É a generalização do amor! Temos a tendência de querer calar quem pensa diferente de nós; de diminuir a argumentação e falar que é MIMIMI; de lutar pelo que achamos justo, mas, às vezes, a nossa justiça é falha - e muito. Eu cometo generalizações equivocadas e  você, provavelmente, também.
Lutar por uma justiça que vai manter a ordem de opressão sobre os vulneráveis, dos menores e necessitados não me agrada, mesmo! O incômodo que Jesus causou foi, principalmente, porque deu visibilidade aos mais pobres e humildes. Jesus andou com os excluídos e direcionou o Reino de Deus para eles! Para os que hoje seriam chamados de privilegiados pelos programas sociais, folgados por receberem auxílio do governo, de não conseguirem empregos e não se dedicarem aos estudos. Jesus sabia que a sociedade é cruel com essas pessoas, sim, as vezes a ordem social mantém pessoas em determinados lugares e não quer que elas saiam dali. Infelizmente.
As pessoas que Jesus curou, para quem pregou e amou, não tinham voz e nem vez nas sinagogas, não tinham acesso ao conhecimento da palavra divina, não poderiam congregar com os demais considerados “Homens de bem”. Jesus, ao contrário do que os príncipes da sinagoga fariam, ensinou nos montes, nos aglomerados, longe dos templos. Nas praças, ruas, morros e poços de água,  não havia lado de fora, qualquer um poderia chegar e ouvir. Jesus fez uma generalização: todos têm que ouvir o que tenho a dizer, seja rico ou pobre, novo ou velho, homem ou mulher, etc.
O que pretendo com essa breve reflexão? Apenas apontar dois caminhos que a generalização pode levar: do amor e do julgamento. Posso generalizar o amor de Cristo, dos direitos humanos, a acessibilidade aos direitos mais básicos. Mas posso, também, generalizar os julgamentos: “Petralha”, “Coxinha”, “Folgado”, “Retardado”, etc. Nessas generalizações, as pessoas têm sido inflamadas pela maldade e falta de empatia.
Que nessa Páscoa acreditemos em uma única generalização: Todos pecaram e foram destituídos da Glória de Deus, mas Cristo veio para tenhamos vida e vida em abundância.  Chega de intolerância! As pessoas continuarão a pensar de forma diferente, continuaram com suas preferências ideológicas e ademais opções! E é bom que assim seja, mas não precisamos desse ódio que diz: se não pensa como eu, está contra mim! Se não faz coro às minhas ideias, está contra meu bem estar.
Que Cristo ressuscite todos os dias em nosso coração, que a humildade do mestre esteja em 
nós e que saibamos a hora de falar e como falar. Com respeito, sempre!