quinta-feira, 21 de julho de 2016

Mulheres, uni-vos!

Ontem foi dia do Amigo e pensei muito sobre o que ter um amigo significa. Nós mulheres, sempre tivemos alguns problemas com amizade: mulheres não são amigas e não há amizade entre homens e mulheres (sempre haverá interesses sexuais). Há uma construção sociocultural (e muito maligna) de que mulheres competem o tempo todo, que elas não conseguem ser amigas e que um amigo vale mais que uma amiga.
Por outro lado, se temos amigos, somos mal vistas e tratadas como oferecidas, haja vista toda extensão da maldade humana no que se refere à vida sexual do próximo. Nessa sinuca de bico, nós mulheres somos ensinadas desde pequeninas a não termos amigos, o que gera um isolamento feminino no espaço privado e o controle total das mulheres, em relação à organização e problematização de suas realidades. Você pode pensar que eu estou exagerando, mas não estou.
Para essa reflexão do dia do amigo, gostaria de trazer uma passagem bíblica sobre amizade entre mulheres e uma passagem bíblica que teimamos em achar que se trata de uma briga e disputa entre duas mulheres, mas, para mim, se trata de um grande ensinamento de Cristo.
A primeira passagem é o livro de Rute, uma história em que duas mulheres que são AMIGAS, conseguem vencer a viuvez e a falta de filhos unidas. Elas voltam para Israel, se unem para se sustentar, e proteger, e Deus as abençoa de uma maneira sobrenatural. SIM, Rute e Noemi eram amigas, uma nora e uma sogra AMIGAS. Mas o que a nossa cultura nos ensina? Que Sogras e Noras nunca podem se dar bem, por quê? Para não se unirem e fazerem valer a sua voz dentro de uma família? Para ficarem sempre buscando aprovação masculina e não apoiarem umas às outras em suas necessidades e  maus momentos? Não entendo o porquê de não falarmos da AMIZADE entre Rute e Noemi, falamos da fidelidade de Rute, como um dom divino e necessário, mas nunca pregamos a amizade que esse texto nos ensina.
A outra passagem que gostaria de refletir é a de Marta e Maria (Lucas 10,38-42), toda a minha a vida aprendi que Marta se preocupava com o supérfluo e Maria com o que era espiritual e bom, colocando Marta contra Maria - sim, colocando duas irmãs em pé de guerra. Qual é a situação: Marta pede a Maria que a ajude com a Diaconia da casa e Maria está aos pés de Jesus sendo discipulada. Por causa do pedido de Marta, Jesus diz: “Marta, Marta (chamado duplo -  isso te diz algo?) você está preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária. Maria escolheu a melhor a que não lhe será tirada.” E pá, o que interpretamos? Marta supérflua e Maria a sábia.
Porque não podemos ver esse texto como chamados diferentes, mas complementares? Que o chamado de cada um é a “parte que não nos será tirada”? Maria foi chamada para o discipulado e Marta para o diaconato. É nisso que acredito, a igreja e o cristianismo se faz de pregação da Palavra de Deus e serviço, ambos juntos e vinculados. Não devemos achar que Maria e Marta eram modelos opostos de cristãs, mas modelos complementares! Assim como TODAS nós!
Podemos ser amigas, podemos nos unir para fazer avançar o Reino de Deus e implementar a sua justiça na Terra. Por justiça social, por serviço ao próximo e por apregoar  a palavra de Deus, JUNTAS:


Mulheres, uni-vos!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Medo do inferno?

O Inferno em chamas, 1993
Quando eu tinha uns nove anos, teve uma exibição de filme com pipoca na igreja - o que era uma super programação, em 1995. Deveria ser um programa legal, deveria me sentir feliz e depois querer contar a história do filme para todo mundo, mas não foi bem isso que aconteceu. O filme era o fatídico “O Inferno em Chamas”, fiquei com medo do inferno, sonhei por meses (e anos), com isso.

Sim, fiz parte de uma geração que aprendeu a ter medo do inferno. Deveríamos ser bons cristãos, deveríamos seguir os dogmas da igreja e tudo o mais que aprendemos nas aulas do catecismo e com a Confissão de Fé de Westminster, senão iríamos para o Inferno. Não aprendemos a seguir esses ensinamentos pelo amor, mas sim pelo medo. Infelizmente.
Tenho pensado muito sobre a intolerância dos cristãos, sabemos que existem diferenças entre pessoas e isso diz respeito a religião, inclusive. Quando nós aprendemos a infernizar a vida dos que são diferentes de nós? Pensei, pensei, pensei… Comecei a reviver a minha infância, como eu tinha aprendido sobre salvação e sobre perdição. Comecei a lembrar do terror de ir pro inferno, de não chegar perto de um pecador, pois o pecado seria como uma doença que pegaria em mim e me levaria para o inferno.
Pareço estar relacionando coisas não relacionáveis? Talvez. Mas pense comigo: quem que é atacado por nós cristãos, senão aqueles que vão para o inferno? Nós fazemos com os outros o mesmo terror interno que sofremos por conta de uma pequena inversão na nossa maneira de ver a salvação. Não somos cristãos porque temos medo do inferno, somos cristãos por causa do amor a Cristo, por causa do sacrifício que nos atraiu. Imagino que isso faça uma extrema diferença na maneira de enxergar a vida.
Se começarmos a enxergar em cada ser humano a Imago Dei (Imagem de Deus) e que Jesus se sacrificou por amor, e por amor a todas as pessoas, será muito mais fácil olhar para o outro com respeito e tolerância. Sim, gays, pessoas de outras religiões, ateus, agnósticos, feministas, esquerdistas, e o que mais quisermos colocar nesse balaio,  são imagem de Deus (na visão cristã). Uia! Se quando olharmos para o próximo lembrarmos que escolhemos a Cristo por causa do amor e não por medo do inferno, nossa vida será mais leve, mais feliz e mais tolerante!
Eu, hoje, não tenho mais medo do inferno, pois escolhi a Cristo por causa do amor d’Ele na cruz, ir para o céu é uma consequência dessa escolha. Anseio vê-lo, tocá-lo e passar a eternidade iluminada pela fonte de luz eterna que é o nosso Deus! Não quero, mais, levar àquela vida mesquinha que outrora eu vivia, uma vida em que eu me preocupava em não ir para o inferno, apenas. Quero, e tento, levar uma vida cujo sentido é viver o amor d’Aquele que pela cruz me atraiu.


Fomos chamados pelo amor e para o amor! E a consequência do chamado do amor é ser chamado para servir. Sim, servir a todos sem distinção, falando das verdades de vida e de perdão única e exclusivamente pelo amor! Ensinemos às pessoas a virem a Cristo pelo amor, não pelo medo do inferno! Façamos do evangelho fonte de vida e boas novas, que tal? Hoje, eu quero ser uma pessoa melhor porque amo a Cristo e porque ele me amou. Se sou boa com o próximo, se sou honesta, boa cidadã, boa profissional e tudo mais, o sou porque Ele me amou primeiro. Somente n’Ele tenho salvação! Que o amor de Cristo conduza as nossas vidas!

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.João 3:16

sábado, 28 de maio de 2016

Por que os homens estupram?

Passei cinco os da minha vida estudando Ciências Sociais para entender que a sociedade é muito complexa e que, infelizmente, não existe receita para resolver nossos problemas. Identificamos os problemas e criamos possibilidades de solucioná-los, mas nem sempre isso é possível, somos cientistas, mas nem sempre resolvedores de problemas. Sim, somos cientistas.
Nessa última semana, vimos uma barbárie com uma garota de 17 anos e muitos especialistas de redes sociais analisando o caso. De todas as explicações, relaciono algumas:

1. A vítima era drogada, teve filho com 13 anos e estava sozinha de madrugada - por isso foi estuprada;

2. Os garotos são vítima da sociedade e, por isso, agem dessa forma;

3. Temos um cultura de desvalorização da mulher e de desrespeito ao seu corpo e direitos, por isso esses casos de estupros acontecem.

Provavelmente, existem outras, mas me aterei a essas três. Das três explicações, uma é descartável e entre as outras duas, uma deve ser manejada com cuidado. A primeira descarto logo de cara, uma vez que NUNCA a vítima é culpada, vi uma explicação no FB bem legal: culpar a vítima pelo estupro é como culpar os dinossauros pelo asteroide que os matou
A terceira é a que eu acredito, vivemos numa sociedade em que mulheres são estupradas e desrespeitadas em qualquer classe social, ambiente ou situação. Mulheres ricas, pobres, brancas ou negras, são desrespeitadas e violentadas (física, verbal, sexual ou psicologicamente); algumas dessas mulheres são mais vulneráveis à violência por serem mais pobres e vítimas de outros sistemas de exclusão - além do fato de serem mulheres - como as negras, por exemplo. Quanto mais dependente e sem capacidade de se manter sozinha, mais violentada essa mulher tende a ser. Por isso Cultura do Estupro, pois antes de um estupro acontecer, existe um comportamento social de desrespeito ao corpo da mulher que engendra nas relações sociais a violência (manja aquele grupo de wpp dos seus amigos do trabalho, no qual vocês comentam a bunda da colega ou que falam que a chefe dormiu com o dono da empresa? Duvidar da capacidade de uma mulher e vê-la apenas como objeto sexual faz parte da cultura do estupro).
A segunda temos que manejar com cuidado, como cientista social corroboro com a tese de que a falta de oportunidades para as classes pobres gera violência, aumenta o ciclo da pobreza e alimenta uma sociedade com desigualdades e ódio entre os que são diferentes. Mas nesse caso, meus caros, não se trata de oportunidade, ou não. Para mim, trata-se de uma cultura que está impregnada em todas as classes. As mulheres estão sempre um passo atrás, em qualquer classe social. A diferença é que você nunca vai ouvir que um Prof. Dr. da USP estuprou, ou tentou estuprar, uma aluna, mas fiquem sabendo que isso acontece - e eu conheço casos.

Por isso o cuidado! Não acreditem que esse é um problema dos pobres, é um problema da sociedade. É um problema seu! Esse segundo argumento tem sido usado com má fé por pessoas que querem livrar as suas próprias caras de uma violência que é endêmica na nossa sociedade.

Triste!


sábado, 16 de abril de 2016

Sobre cigarras e formigas...

Sugiro que ouçam essa música:




Trabalho em um campus universitário bastante arborizado e com um pequeno bosque. Há uns seis meses, mais ou menos, houve reprodução das cigarras e, durante a reprodução, elas ficam cantando durante uma ou duas semanas. Depois, se libertam de suas cascas (exoesqueleto), se reproduzem e, logo depois, morrem. Quando vejo uma cigarra cantando sempre recordo da velha fábula da Cigarra e da Formiga, lembram-se? Enquanto a formiga trabalhava a cigarra só cantava… Depois, veio o inverno e a formiga ficou quentinha no seu abrigo, com muita comida, e a cigarra, desprovida e com frio, teve que pedir ajuda para a heroica formiguinha trabalhadeira…
Isso é um crivo de julgamento: cigarra folgada, porque canta; formiga trabalhadora porque faz uma reserva - essa é a moral da fábula. Há alguns anos, em uma aula de biologia do ensino médio, descobri que as cigarras vivem de 1 a 17 anos embaixo da terra e que elas passam todo esse período reciclando matéria orgânica, essa atividade aduba a terra e evita o acúmulo de matéria orgânica. A cigarra, também, ativa o processo bioquímico das plantas, pois acredita-se que ao sugar a seiva das plantas, ela faz com que as plantas entrem num estado de dormência, evitando a floração exagerada  -  o que  esgotaria seus recursos químicos, abreviando a vida da flor.
Não que a formiga não tenha seu valor e  seu trabalho não seja importante, elas também são parte do final da vida, da decomposição dos animais e plantas. Elas regeneram aquilo que era “perdido”, além de,  ao andarem para lá e para cá, dispersarem as sementes e servirem como agentes polinizadores. No final das contas, cigarras e formigas têm quase as mesmas funções no mundo, mas uma é vista e a outra não. Uma é conhecida e a outra não. Uma tem um padrão de trabalho conhecido e a outra não.
Ao vermos a cigarra a cantar, parece que ela está ali apenas se divertindo e fazendo barulho, mas, na verdade, ela está num rito de reprodução, de colocar os ovos e morrer. Sim, quando uma cigarra vem à tona é para morrer. Triste, não? Pensando nisso, percebo a injustiça que cometemos com as cigarras por toda a vida. Separando-as dos demais decompositores, tratando-as como menos importantes no papel da "reciclagem" da vida.

A cigarra leva uma vida que ninguém vê, ninguém sabe e quando ela vem à tona ela é julgada. Pobre cigarra, não pode terminar a sua vida em paz, sem ser taxada de preguiçosa... Mas, isso é uma fábula, não tem qualquer relação com os que julgam aqueles que ficaram 17 anos embaixo da terra...

quinta-feira, 24 de março de 2016

A generalização do amor

Hoje é quinta-feira à noite, acabo de chegar do trabalho, estou cansada e faz um tempo que não escrevo, mas penso: “não posso deixar passar a Páscoa em branco, preciso escrever”. E cá estou eu, escrevendo sobre a data mais importante do calendário Cristão: Morte e Ressurreição de Cristo! O nascimento de Jesus e sua morte/ressurreição são as datas mais importantes do nosso calendário litúrgico, mas a Páscoa, para mim, é a mais profunda, é sobre a Graça, Perdão e Amor. Sobre imerecimento e a maior e mais legítima generalização dessa terra: a salvação é para todos!
Temos vivido momentos difíceis, de ódio, de intolerância, de impiedade. Podemos ser agredidos por usar uma cor; por preferência política; por opinião - independentemente de lado. Vivemos um grande “diálogo sem ouvintes”, fala-se muito e ouve-se pouco. Queremos ser ouvidos e entendidos, mas preferimos chamar de "retardados" aqueles que têm opiniões opostas. Optei por ter uma opinião à esquerda, que prefere se posicionar ao lado dos vulneráveis, que não quer julgar os "folgados”, mas que compreende que o nosso sistema econômico desfavorece a distribuição equânime de oportunidades, renda e conhecimento. Não acredito que as pessoas são folgadas ou pouco esforçadas, pois não há como ser dedicado com a barriga vazia; sem escolaridade; sem saneamento básico; sem boas escolas; boa saúde e sem opção de lazer nas periferias. Repare na periferia da sua cidade: quantos teatros? Centros esportivos? Áreas recreativas?

Pois bem, nessa Páscoa tenho aprendido a me recolher, embora ainda pense da mesma maneira. A graça e o amor imerecido são para todos, para os que pensam como eu e os que não pensam, também. É a generalização do amor! Temos a tendência de querer calar quem pensa diferente de nós; de diminuir a argumentação e falar que é MIMIMI; de lutar pelo que achamos justo, mas, às vezes, a nossa justiça é falha - e muito. Eu cometo generalizações equivocadas e  você, provavelmente, também.
Lutar por uma justiça que vai manter a ordem de opressão sobre os vulneráveis, dos menores e necessitados não me agrada, mesmo! O incômodo que Jesus causou foi, principalmente, porque deu visibilidade aos mais pobres e humildes. Jesus andou com os excluídos e direcionou o Reino de Deus para eles! Para os que hoje seriam chamados de privilegiados pelos programas sociais, folgados por receberem auxílio do governo, de não conseguirem empregos e não se dedicarem aos estudos. Jesus sabia que a sociedade é cruel com essas pessoas, sim, as vezes a ordem social mantém pessoas em determinados lugares e não quer que elas saiam dali. Infelizmente.
As pessoas que Jesus curou, para quem pregou e amou, não tinham voz e nem vez nas sinagogas, não tinham acesso ao conhecimento da palavra divina, não poderiam congregar com os demais considerados “Homens de bem”. Jesus, ao contrário do que os príncipes da sinagoga fariam, ensinou nos montes, nos aglomerados, longe dos templos. Nas praças, ruas, morros e poços de água,  não havia lado de fora, qualquer um poderia chegar e ouvir. Jesus fez uma generalização: todos têm que ouvir o que tenho a dizer, seja rico ou pobre, novo ou velho, homem ou mulher, etc.
O que pretendo com essa breve reflexão? Apenas apontar dois caminhos que a generalização pode levar: do amor e do julgamento. Posso generalizar o amor de Cristo, dos direitos humanos, a acessibilidade aos direitos mais básicos. Mas posso, também, generalizar os julgamentos: “Petralha”, “Coxinha”, “Folgado”, “Retardado”, etc. Nessas generalizações, as pessoas têm sido inflamadas pela maldade e falta de empatia.
Que nessa Páscoa acreditemos em uma única generalização: Todos pecaram e foram destituídos da Glória de Deus, mas Cristo veio para tenhamos vida e vida em abundância.  Chega de intolerância! As pessoas continuarão a pensar de forma diferente, continuaram com suas preferências ideológicas e ademais opções! E é bom que assim seja, mas não precisamos desse ódio que diz: se não pensa como eu, está contra mim! Se não faz coro às minhas ideias, está contra meu bem estar.
Que Cristo ressuscite todos os dias em nosso coração, que a humildade do mestre esteja em 
nós e que saibamos a hora de falar e como falar. Com respeito, sempre!

quinta-feira, 17 de março de 2016

Quando dói perder o satus quo

No último domingo, aconteceu a “Marcha contra a Corrupção” que foi um evento grande, com convocatórias de políticos (sem partido, han?), veículos de comunicação e até empresas de fast food. O protesto não me representa, por inúmeros motivos e, principalmente, pelo fato de ser uma estratégia para blindar alguns corruptos e enfraquecer o governo que, sim, foi eleito democraticamente e, até onde sei, esse é o princípio da democracia: se 54 milhões votaram na chapa PT/PMDB e 51 milhões na outra, a maioria vence (seja com 70% ou 51%).
Beleza, numa sociedade de padrões opressores,
é acionada como argumento
Tenho inúmeras críticas ao governo Dilma, por desrespeitar a sua base social, não ter peito para os ajustes necessários, não colocar em pauta as discussões urgentes e ainda beneficiar empresários (diga-se de passagem que o lance da Samarco foi um horror, deliberadamente o governo atuou em causa da mineradora ao tornar o acidente em desastre natural e, ainda, não agir como deveria ter agido num desastre que, na verdade, foi um crime ambiental).  Evidentemente, todas essas críticas, e outras que eu poderia fazer, não estiveram em pauta no último dia 13 e eu nem esperava que estivessem.
Tendo em vista os arroubos de mudança, esse texto tem o objetivo de escancarar que o “Novo Projeto de Brasil” é mais do mesmo. Acompanhei as manifestações pelas redes sociais e pela TV, para mim houve um show de horror (de várias perspectivas): a exposição de indivíduos, o exagero das argumentações, a deslegitimação dos lugares de fala, etc.  Sim, como tem sido recorrente nas falas, tudo isso virou um grande Fla x Flu. Contudo, enxergo um ponto pacífico nas críticas que, praticamente, é irrefutável - mesmo para os apoiadores do protesto - o machismo foi a linguagem dos manifestantes. Infelizmente.


Expulsaram o Aécio: “Fora, filha da puta”
Eram contra a Dilma: “Balança que a quenga cai”; “Baranga”; “Vagabunda”



A misogenia, o feminícidio e o machismo estiveram presentes e, diria mais, houve um proselitismo dessas ideias opressoras e desrespeitosas. Mais do mesmo! Vivemos num país em que as mulheres são julgadas pelas suas roupas, pelo exercício de sua sexualidade, por suas opções de maternidade/ou não, pela sua dedicação às profissões “masculinas”, etc. Mulheres são mortas por dizerem não aos namorados, maridos e pretendentes.  Mulheres são assediadas nos trens, parques, ruas, faculdades, trabalhos e, o pior de tudo, em seus próprios lares. E o que acontece num mega evento como o do último domingo?
“DILMA, PENA QUE NÃO TE ENFORCARAM NO DOI-CODI”


Imagino que, para essa parcela da população, deva ser difícil fazer parte de um pais que tem uma mulher no maior cargo executivo do país. O mais intrigante é que 5 dias antes dos protestos as redes sociais estavam cheias de flores e declarações para a mulher e sua feminilidade. Passado o 8 de março, temos os  xingamentos mais misógenos possíveis, que lembram a todos que a vagina é sinônimo de liberação para vincular desaprovação à Presidência da República ao órgão sexual da Dilma.
“FEMINICÍDIO, SIM”
Não há como lutar por um país mais justo, sem corrupção, se o desrespeito à mulher está instaurado. Se protestar contra um governo é atacar à sexualidade de uma mulher. Se a incompetência está diretamente ligada à vagina.  Se não se julga uma presidente por seus atos, mas por ser uma mulher. Não, isso não é um país novo. Sinto-lhe dizer, mas é uma luta pela manutenção do status quo, no qual a sociedade mantém suas relações de poder (quer seja sobre a mulher, o negro, o homossexual, o pobre, ou seja, sobre os vulneráveis)
Os protestos não me representam e diria que há um enorme equívoco no clamor ao “combate” à corrupção. Do ponto de vista de uma mulher, foi humilhante ver nas palavras de ordem, cartazes e postura dos manifestantes a misoginia incrustada na sociedade brasileira. Nesse novo “projeto de Brasil” a dignidade feminina não está em pauta, sendo assim, definitivamente não me representa.  Se um país melhor não comporta a dignidade feminina, se o respeito à mulher não está nesse novo projeto de país, NÃO ME SERVE!


Para você que não acredita que existe feminicídio (matar alguém por ser uma mulher), veja esse vídeo:




terça-feira, 15 de março de 2016

A Caridade "Anônima"

Quem acompanha esse blog há algum tempo, já percebeu que aqui levanto a bandeira da Garantia dos Direitos - de todos! Embora seja um Blog que procura problematizar a sociedade cristã e colocar a crítica à opressão que a Igreja ajuda a propagar, nem sempre a Igreja é o alvo da crítica e hoje esse é o caso. Nessa última semana, o que “bombou” na rede foi a foto da Xuxa com três garotos que faziam malabarismo em algum farol para completar o orçamento doméstico escasso. Isso realmente exaltou os ânimos, tanto para defender como para denunciar a ação da Xuxa.
Pois bem, há algum tempo já desejo escrever a respeito da “Caridade Anônima” e acredito que essa seja uma boa ocasião. Há uma passagem muito famosa no sermão do monte (que pode ser lido nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho segundo a São Mateus), em que Jesus Cristo orienta: “O que a sua mão direita fizer a esquerda não deve saber”, Mateus 6,3. O que isso significa? Simplesmente, que ninguém deve se promover em cima de caridade ou qualquer ação social que venha realizar, o que, de fato, é o que mais acontece hoje em dia: a fetichização da pobreza!


Leia um texto ótimo da Djamila Ribeiro aqui


Vivemos numa época em que ajudar ao próximo vende, e vende muito! Coisas como: "Se você comprar hoje um lanche a renda será convertida para o Instituto do Câncer X"; "se você ligar, poderá doar para o projeto Y"; "se comprar 10 pacotes de fralda 1 vai ser doado para o orfanato Z" e assim por diante… Mas, Simony, você é contra a doação que as empresas fazem? Você não se importa com as crianças que elas ajudam? Me importo, e porque me importo acredito que quem deva fazer isso é o Estado ao garantir os direitos! Contudo, também participo de muitas ações sociais que ajudam as pessoas que o Estado esqueceu, mas quando for aquela do "palhaço" lá, não!
O que acontece é que a pobreza vira propaganda, baixa e barata! Uma lógica na qual o Estado se omite de fazer o que é devido para garantir os direitos dos cidadãos e incentiva que a iniciativa privada realize “ações sociais”, com isenção fiscal,  não pode ser chamada de ajuda - ou coisa parecida. É muito mais barato do que lançar uma mega campanha no horário nobre: sensibiliza o cidadão e faz com que ele sinta que está ajudando a Instituição, mas, na verdade, está enricando o dono da empresa, isso sim!
Mas, no que isso tem relação com a Xuxa e os garotos no farol? Ela se promoveu, pareceu uma pessoa muito boazinha que cumprimenta seus fãs, independentemente de quem seja. Ela conseguiu valorizar a imagem dela de “Rainha do baixinhos”, mas com um preço muito caro. Por que ela não usou sua fama e poder de influência para problematizar o trabalho infantil? Para denunciar que esses garotos, ao invés de estarem na escola ou em atividades culturais, estavam expostos a violência e assédio (de todos os tipos) que a rua tem a oferecer? Viram? Ela naturalizou o que é um absurdo, e todos acharam que ela é boazinha por ter um instituto de caridade (que, diga-se de passagem, desconta milhões em todas as declarações de Imposto de Renda dela). Numa sociedade que prima os princípios cristãos, inclusive distorcendo muitos para justificar suas arbitrariedades, se esqueceram de dizer que se promover à custa da pobreza não pode! Segundo o evangelho de Cristo, devemos ajudar as pessoas como nós mesmos gostaríamos de ser tratados - e eu aposto que se alguém expusesse a Sasha, sem a autorização da Rainha, arranjaria sérios problemas!
Quando for participar de alguma campanha em prol de alguma causa, pense bem! Existem muitas instituições sérias que fazem um belo trabalho, não só de acolhimento, mas de militância, também! Doe fraldas, sabonetes, absorventes, leite em pó e outras coisas para Casas que acolhem vítimas de violência doméstica e sexual, casas que abrigam imigrantes sem trabalho, etc. Não se deixe seduzir, e muito menos enganar, pela lógica da Xuxa no Farol!

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